Nelise Luques
Poucos a conhecem pelo seu nome. A professora aposentada Maria Theodora Lemos Silveira, a tia Lolita, é considerada a “Mãe do Hallel”. Considerado o maior festival de música católica da América Latina, o evento que reúne padres, pregadores e bandas do Brasil todo e também do exterior é genuinamente francano.
Enquanto rezava, Tia Lolita conta que teve uma visualização, muitos jovens formavam uma multidão e cantavam e dançavam. A inspiração se concretizou com a realização do primeiro Hallel em 1988.
Hoje, no alto dos seus 88 anos, Tia Lolita aguarda ansiosa e alegre a 35ª do Hallel, que acontece no Parque “Fernando Costa”, de 9 a 11 de setembro, e espera milhares de pessoas.
Em entrevista ao Verdade, a “Mãe do Hallel”, sempre com seu jeito gentil e voz suave, compartilhou suas experiências de fé, a missão do Hallel e falou sobre os nomes do cenário católico nacional que prometem abrilhantar mais essa edição do encontro.
Como a senhora vê o retorno do Hallel depois de dois anos suspensos por causa da pandemia?
Olha, todos nós que pertencemos ao Hallel, a essa obra que é de Deus para anunciar Jesus Cristo, nós sentimos muito, não só a equipe do Hallel, mas as pessoas que vinham, que graças a Deus é uma multidão que vem, então nós sofremos com a pandemia. Fizemos Hallel online, mas não é a mesma coisa, mas esse ano vai ser presencial e nós estamos muito animados porque os próprios pregadores estão querendo vir, vem sacerdotes, bandas, pregadores muito conhecidos, nós estamos na maior alegria, está todo mundo trabalhando com alegria mesmo.
Quais são os destaques da programação desta edição do Hallel?
Eu acho que uma das pessoas mais conhecidas, como sacerdote, é o Padre Marcelo Rossi, o padre Adriano Zandoná, o frei Mauro, que é muito querido por nós aqui em Franca. Nós temos 22 sacerdotes participando. Agora eu vou falar de leigos, o Martin Valverde, que todo mundo gosta muito, a Camila Marques, a Ivoninha e quase umas 50 bandas, como a Colo de Deus.
Como a senhora disse, o Hallel atrai multidões. Qual é o público esperado?
Olha, a gente sempre espera muito na fé, todo Hallel é feito na fé, então nós estamos assim, muito animados, esperando que o pessoal volte e que aproveite aquilo que o Senhor tem reservado para nós. O tema é “Somos todos irmãos”. É um tema que o nosso querido papa Francisco tem trabalhado muito. Ele pede uma fraternidade universal, nem é só para os católicos, então, o Hallel está dando a resposta através do evento. “Somos todos irmãos” é um nome muito forte em que a gente, não só pela necessidade que o papa está falando, mas Jesus falou, é Jesus que nos ensinou a ter o mesmo pai, pai nosso, a mesma mãe, nossa mãe. E ele mesmo fala ‘vai avisar meus irmãos’, umas três vezes ele fala isso no Evangelho. E no Evangelho, segundo Marcos, capítulo 3, ele fala assim, porque vieram chamá-lo porque a mãe dele estava lá fora esperando e falou quem é minha mãe e meus irmãos? Aí ele correu o olhar e falou: todos aqueles que fazem a vontade de Deus são meus irmãos, minhas irmãs, minha mãe. Então nós temos um parentesco muito forte com Jesus também. Isso é uma grande honra.
Na opinião da senhora, qual é a importância do Hallel para Franca?
Socialmente e economicamente, eu acho que é bom porque os hotéis ficam lotados, as lojas, os restaurantes, movimenta a cidade muito e isso é uma coisa boa para Franca, leva o nome da cidade para fora também. Mas, espiritualmente, as pessoas têm um reencontro, um recomeço de vida, quando a gente encontra com Jesus, a nossa vida muda. E cada novo encontro, é uma nova renovação para a gente seguir aquilo que Jesus está nos pedindo, que é uma vida de paz, de alegria e de amor, sem mágoa, sem ódio, sem brigas, mas com reconciliação e em paz.

Tia Lolita, são 35 anos de Hallel. Que histórias marcantes a senhora pode destacar?
A cada ano há uma beleza diferente, há um tema que atrai, Jesus se manifesta em todos os lugares, em todas as pessoas, porque não é só a pregação. Há um santo que fala assim, a gente evangeliza e, se precisar, fala. De verdade, a evangelização não precisa falar, é o testemunho de acolher, de tratar bem, de sorrir, falar coisas mansas, este é o mais importante, é o que evangeliza mais.
Como nasceu o Hallel?
A Renovação Carismática estava fazendo dez anos na Diocese de Franca e eu estava reunida em uma sala com uma jovem e um jovem, da música, e nós íamos rezar e eu vi o que que o Senhor queria de celebração. E nós rezamos, cantamos e eu tive uma visualização. Eu vi uma multidão de jovens curtindo música e eu partilhei com eles e eles gostaram da ideia porque os dois eram músicos. E eu abri a palavra de Deus, porque eu não faço nada sem ouvir a palavra de Deus, se Ele aprova ou não aprova. E caiu em Marcos, 16:15, que diz assim: Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Nós entendemos: é para falar de Jesus Cristo, Hallel tem que falar de Jesus Cristo, a toda a criatura e por todo o mundo. Hoje, nós já estamos em dez países e aqui no Brasil tem muito mais de 20 cidades que realizam Hallel. Este ano eu estou fazendo uma retomada, estimulando outras cidades a voltarem a realizar o Hallel, porque nos dois anos da pandemia ficou todo mundo parado. E há outras cidades que ainda não fazem e que vão fazer.
E depois dessa inspiração que a senhora teve, até nascer o primeiro Hallel, levou muito tempo de espera?
Não, foi tudo rápido. Nós fizemos essa reunião no dia 16 de janeiro de 1988, nós fizemos o primeiro Hallel em julho. Eu falei com a minha família, todo mundo aprovou, falei com o bispo, era o dom Diógenes, ele aprovou, conversei com a equipe da Renovação, então todo mundo aprovou e nós fizemos um evento que não tinha modelo para ser um ano só, mas foi tão bom que estamos fazendo o 35º.
E como a senhora avalia o Hallel aos 35 anos?
Então, esses dias eu ainda comentei que eu louvo e bendigo a Deus, porque se eu não for ao evento Hallel, eu não faço falta nenhuma, porque tem servos para todas as funções, em todo lugar tem gente disponível, servo disponível, para fazer a vontade do Senhor. Então, essa é a minha grande alegria.
São quantas pessoas mais ou menos envolvidas na organização e na realização do Hallel?
Antes da pandemia, nós éramos 5.311 pessoas trabalhando, agora eu não sei. Todas as barracas têm equipe do Hallel, em todos os módulos, tem equipe do Hallel, no palco, com a organização das bandas, tem equipe do Hallel, porque é muita gente. Para você ter uma noção, quando o Hallel fez 25 anos ou 30, nós tivemos 111 bandas. O Hallel é uma graça de Deus, nós não temos nada com isso. É Ele que movimenta, é Ele que instrui, é Jesus.
E quais são os planos do Hallel?
Todo ano a gente faz um curso de capacitação para as cidades que querem fazer Hallel e junto a gente faz de avaliação com as cidades que já fazem Hallel, porque a partilha é muito importante. O Hallel de Franca não sabe de tudo, nós aprendemos com os outros e a gente ensina, sabe? É uma troca de vivência e eu acho isso muito importante.
E o que a senhora deseja é expandir mais e chegar ao máximo de cidades e países possíveis?
Para onde Jesus mandar, nós estaremos.
O Hallel é muito mais que o festival de música durante três dias, quais são os outros trabalhos do Hallel Escola com o trabalho de evangelização?
Olha, quando a gente fala de Hallel, principalmente bispo e padre costumam falar assim ‘tá bom, fica lá 3 dias, festeja, dança, canta, e depois?’. E eu falo que nós temos um depois. No Hallel Escola, nós temos hoje o curso de Anjinhos do Senhor, um acampamento para crianças de 3, 4 e 5 anos; Acampamento Querubim, para crianças de 6, 7 e 8 anos; o Serafim, para 9, 10 e 11; o Davi, para 12, 13 e 14; o Hacoré e o Canaã, para 14, 15, 16 e 17 anos. O Maanaim é a partir de 18 anos, nós temos o Gipi, Giane e Pietro, que é para namorados e noivos; nós temos curso Tenda, que é para casais; curso para vocacionados e seminaristas. Nós temos o Acorde, para músicos, temos o curso Ternura, para as mulheres grávidas; nós temos o curso Emanuel, que é para mulheres que querem engravidar, e, graças a Deus, todo acampamento que a gente faz, aparece mulher grávida depois, o Senhor ouve. Nós temos três cursos prontos, que era para ter feito há dois anos, esses nós ainda não fizemos, mas vamos fazer logo. É o Santa Rita, que é para pais e mães que perderam filhos; e o acampamento para viúvos e viúvas. Tem também o Fij, Formação Integral do Jovem, que é para jovens. Temos o curso Padre Pio, que é de intercessão, porque a nossa missão é muito de interceder, Jesus fala rezai, rezai, e nós procuramos rezar muito mesmo. Ana e Joaquim são os pais de Maria e avós de Jesus e nós temos um curso chamado Ana e Joaquim para pessoas com mais de 60 anos. Temos que atender a todos. Quem quiser participar, é só procurar o Hallel Escola.
E, tia Lolita, como nasce a sua relação com o Catolicismo?
Tudo vem pela fé, eu acredito Nele, Ele faz tudo o que Ele fala. A minha Bíblia é cheia de datas e de graças. Eu li, acreditei e aconteceu, e tem até milagres.
A senhora pode compartilhar alguma história com a gente?
Posso! A minha filha mais velha, que hoje é médica, com 12 anos, ela teve lúpus eritematoso disseminado e os médicos falaram que ela não tinha recurso, que estava para morrer. Nós ficamos dez dias lá no hospital esperando ela morrer. Mas eu abri a palavra de Deus e caiu em Hebreus, na passagem que fala da fé de Abraão. Ele foi submetido à fé, ofereceu o seu único filho para sacrifício e ele foi restituído, isso é um milagre. Eu acreditei na minha filha. Pedi para o meu marido trazer o padre, ele deu a unção e ela levantou. Fez 65 anos agora. Eu fui a um encontro em Brasília e dei esse testemunho. E deixa eu te falar uma coisa, na palavra de Deus, fala assim: e pela fé o filho foi restituído e a sua posteridade. Essa minha filha já era casada há quase três anos e não conseguia engravidar. Aí eu entendi, posteridade é filho. Eu telefonei para ela, era dia 10 de janeiro, umas dez horas da noite, de Brasília eu telefonei para Ribeirão, que ela mora lá, falei: Marina, você vai ser mãe este ano. Ela começou a chorar e eu também. Dia 28 de outubro, o Mateus nasceu. Deus faz tudo o que Ele fala e eu tenho fé.

Tia Lolita, fundadora do Hallel, ao lado do Padre Marcelo Rossi, que retorna a Franca para participar do 35ª edição deste ano, em setembro | Foto: Igor do Valle