Nelise Luques
A psicóloga Eliane Matheus Bonfante tem especialização em Saúde da Família e pós-graduação na área de Dependência Química, possui vasta atuação na área da Saúde, na qual trabalhou por 31 anos em São Sebastião do Paraíso (MG) e foi responsável por estruturar a rede de Saúde Mental do município.
Atualmente em Franca, Eliane é coordenadora geral dos CAPSs (Centros de Atenção Psicossocial) Florescer e Renascer, sob gestão da Fundação Espírita Allan Kardec em parceria com a Prefeitura Municipal.
A Fundação completará cem anos em novembro e tem realizado uma série de entrevistas com especialistas para abordar temas relacionados à Saúde Mental. Eliane foi uma das entrevistadas e o Jornal Verdade compartilha nesta edição o conteúdo abordado com a especialista.
Os riscos do consumo abusivo do álcool e outras drogas, o tratamento oferecido gratuitamente nos CAPSs e o papel da família na recuperação da pessoa dependente química são temas em destaque.
Eliane, no Brasil instituiu-se o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, no mês de fevereiro. Gostaria de saber a sua opinião sobre a importância de ter uma data como esta, estimulando discussões sobre esse assunto.
É um prazer falar sobre o meu trabalho, podendo compartilhar informações a respeito de como tratar algo tão polêmico, que é o uso das substâncias psicoativas e nesse momento especificamente falando sobre o álcool. Inclusive aqui no nosso departamento, no CAPS Renascer, o índice maior de pessoas que nos procuram hoje são pessoas em uso especificamente do álcool e em uso abusivo dessa substância. E é muito importante a gente falar sobre isso pelo fato de muitas vezes a dependência da substância ser um tabu e as pessoas não conseguirem entender quando está dependente ou não daquela substância. Então, quando a gente fala de uma data para falar sobre isso, é uma data de enfrentamento a essa questão que é tão prejudicial, falando em todos os ângulos da vida, a nível social, psicológico e principalmente profissional.
Eliane, realmente as pessoas têm dificuldade em entender que o consumo abusivo realmente é uma doença e precisa ser tratada. Qual a orientação para que quem enfrenta esse problema consiga conscientizar as pessoas dependentes ou quem convive com elas?
Eu acho que é muito importante a gente falar, ressaltar a banalização do uso do álcool. Se a gente pensa numa droga ilícita, a cocaína, o crack, não é encontrada nas prateleiras do supermercado, enquanto o álcool, ele é encontrado em qualquer prateleira, em qualquer restaurante, em qualquer lanchonete e esse uso, às vezes abusivo, é banalizado. E é onde aquela pessoa que se torna uma dependente do álcool, não percebe que ela precisa do álcool para viver. E um sinal extremamente importante é a partir do momento que a pessoa começa a fazer uso do álcool todos os dias e ela precisa fazer uso do álcool para desempenhar qualquer atividade diária, cotidiana, que até então não tinha essa necessidade.
Como detectar os sinais de quando esse consumo está além da conta?
Sim, e é exatamente isso. A partir do momento que você começa a usar diariamente e para fazer pequenas, por exemplo, usar uma dose, um drinque, antes do trabalho. Então, esse é um sinal, assim, extremamente importante de alerta para se procurar ajuda. Não deixar que isso vá mais longe. Então, se você percebe que está precisando usar o álcool diariamente para fazer as suas tarefas rotineiras, cotidianas mesmo, você tem que procurar ajuda e é para isso que o CAPS está aqui, de portas abertas.
Quais os recursos que essas pessoas encontram no CAPS e como é o acolhimento a partir do momento que ela procura esse serviço?
O CAPS é um departamento da Raps, que é a Rede de Atenção Psicossocial, e é um departamento público, que tem a gestão feita pela Fundação Allan Kardec e esse departamento é mantido pela Prefeitura. O CAPS está sempre de portas abertas e a demanda é espontânea. Então, se alguém precisa, sente a necessidade de conversar sobre isso, de entender se o uso é abusivo ou não, nós temos um profissional de plantão, todos os dias, manhã e tarde, para acolher quem precisa, para a gente orientar e mostrar o departamento, como ele funciona.
Eliane, a partir do momento que a pessoa passou por esse profissional, quais os encaminhamentos que vocês costumam dar?
A pessoa que nos procura vem em busca de uma orientação sobre aquele uso abusivo, aquela dependência que ela apresenta, e a partir daí, a gente apresenta todas as dependências do CAPS e a gente monta para essa pessoa, estrutura para ela um PTS, que é o Projeto Terapêutico Singular. A partir desse projeto, nós indicamos as oficinas terapêuticas e o tratamento adequado dentro do CAPS. E, diante da demanda apresentada e do perfil dessa pessoa que nos procura, nós estruturamos o tratamento, o PTS é um tratamento que essa pessoa passa dentro do CAPS. E aí é um tratamento psicológico, um tratamento social, um atendimento psiquiátrico, em todas as instâncias e demandas que essa pessoa apresentar. E esse período que ele permanece aqui vai depender muito da resposta ao tratamento, que pode ser um mês, podem ser quinze dias, podem ser três meses, vai depender muito porque a gente trabalha na singularidade. Então cada pessoa que nos procura tem uma resposta diferente ao tratamento oferecido.
Não existe então uma receita para o tratamento das pessoas dependentes químicas. Como o trabalho nas oficinas do CAPS ou atendimento com psicólogo e psiquiatra agem no organismo da pessoa para ela vencer uma doença, uma dependência tão forte?
Como a gente comemora em fevereiro, há o enfrentamento, porque chegar até aqui e entender, e admitir que ‘estou em uso de uma substância e estou em uso abusivo’ é um passo importantíssimo para a pessoa se conscientizar. A partir daí, com todas essas oficinas, o atendimento psicológico, atendimento de terapia ocupacional, nós trabalhamos o enfrentamento a essa dificuldade e lembrando que o uso abusivo do álcool é uma doença, é um transtorno extremamente importante que tem que ser tratado. E às vezes as pessoas não entendem essa situação que ele está doente, que está adoecido e que ele precisa de ajuda. Nosso trabalho é mostrar para as pessoas que nos procuram que isso é um transtorno e que essa pessoa precisa realmente de ajuda e que nós estamos aqui aptos para ajudá-las no que for necessário. Então, para esse enfrentamento aqui é o lugar em que você encontra um caminho para o enfrentamento desse transtorno, para o uso dessa substância.
Sim! E no caso dos familiares, às vezes a pessoa que consome, ela não tem essa ideia, de que é uma doença, mas alguém da família detecta que alguma coisa está desajustada. Há também uma orientação a esses familiares?
Sim, inclusive nós temos no CAPS familiares que estão aqui e as pessoas que estão em uso de substâncias não frequentam. Então a gente trabalha o empoderamento dessa família, o fortalecimento para ela enfrentar esse seu filho ou esposo, esposa, que está com essa dependência, para o familiar poder ajudar. E é uma pergunta extremamente importante que você fez porque a família é o pilar de todo tratamento, não que quem não tenha uma família imediata, um parentesco imediato, não possa vir, não estou dizendo isso, mas eu estou dizendo que o familiar, quando ele consegue entender que é um transtorno, que esse paciente está no estado patológico, que ele precisa de ajuda, ele consegue ajudá-lo de uma maneira muito mais tranquila e isso flui, a gente trabalha aqui no CAPS e tem a família em casa dando apoio. Por isso a gente tem as reuniões de família e nesses encontros a gente trabalha tudo isso, orienta a família sobre o que é o CAPS, o que é o tratamento e o que é o uso da substância.
A Fundação Allan Kardec assumiu o CAPS AD III Renascer há mais de um ano e meio. Quais foram as principais mudanças ocorridas a partir dessa nova gestão? E qual o balanço que você faz do trabalho neste período, Eliane?
Nós assumimos uma dinâmica diferenciada, uma dinâmica realmente de CAPS, que é o Centro de Atenção Psicossocial e tem um trabalho baseado em oficinas. Inclusive aqui é um CAPS na modalidade III, nós temos também leitos de retaguarda noturna, então se o paciente precisar de um acolhimento no leito, nós também estamos aptos a acolher e essa diferença do enfrentamento e de orientar e de explicar e de estar com essa pessoa aqui todos os dias. Para quem está no leito, nós oferecemos refeições diárias, café da manhã, almoço, café da tarde, jantar e a ceia. Então, essa pessoa que está aqui com a gente, ela tem todo o apoio necessário e isso transforma, porque a gente trabalha com foco em devolver esse paciente para a sociedade, não tem que permanecer aqui. Por isso que eu te falo que tem que ser o mais curto possível de permanência aqui, porque a gente trabalha com esse indivíduo para devolvê-lo para a sociedade, para que ele continue com a sua vida, com a sua família, no seu bairro, no seu trabalho e esse enfrentamento, ele é trabalhado em todas as oficinas, como a gente acabou de comentar.
E a diferença principal é porque também passou a ser 24 horas, o CAPS não fecha as portas!
O CAPS não fecha as portas, nós temos inclusive atendimento no período noturno, também aos sábados, o que é um diferencial, porque o CAPS anterior não tinha, isso possibilita àquelas pessoas que trabalham, que têm uma uma vida, uma rotina profissional, que ela esteja aqui, que ela venha fazer o tratamento sem interferência nenhuma no seu trabalho.
Certo. E existe algum balanço de atendimentos que o CAPS fez desde que a Fundação assumiu?
O que a gente tem hoje e que eu poderia passar para você imediatamente seria o índice maior do número de pacientes em uso de álcool. Em segundo lugar fica o uso do tabaco e em terceiro lugar, entre os pacientes que nós atendemos aqui, o uso da cocaína e o crack. Então, hoje o grande vilão do nosso CAPS em Franca é ainda o uso do álcool.
E Eliane, qual o perfil desses usuários?
Nós atendemos basicamente, acho que a gente poderia dizer 85% de homens, acima de 18 anos. O número de mulheres que nos procura ainda é pequeno, eu não saberia dizer se talvez por receio de procurar tratamento ou se realmente esse dado é fidedigno à cidade de Franca, considerando que a gente atende só Franca. Então nós temos hoje uma população 85% mais ou menos de homens aqui no CAPS.
Estamos falando do consumo de bebidas alcoólicas. A cerveja, tão popular, comum em festas, nos lares, vários locais, também pode ser um vilão?
Sim, com certeza. A gente faz uma analogia que uma latinha de cerveja equivale a uma dose de cachaça. Então se a gente pensar que todos os dias eu vou tomar três, quatro latinhas de cerveja, isso realmente é algo muito preocupante. Então, a cerveja é um vilão, ela tem um percentual alto de álcool, algumas mais, outras menos, mas ela é uma bebida alcoólica que pode ser o início de uma dependência para muitas pessoas. Então, a cerveja, o chopp são bebidas alcoólicas, elas contêm álcool e seu uso excessivo é preocupante.
Gostaria de aproveitar toda a sua experiência com esses atendimentos e pedir para você comentar um pouco sobre os impactos reais, físicos e mentais, que o álcool pode trazer.
Eu acho que a gente conseguiria falar um dia inteiro sobre tantos danos que o álcool causa. Eu acho que o impacto físico gritante a gente pode pensar no índice alto de acidentes, principalmente automobilísticos, com envolvimento de pessoas em uso de álcool, é muito comum a gente ver isso na mídia todos os dias. O impacto psíquico é grande também, esse indivíduo não consegue ter mais a sua atividade profissional normal, através do uso abusivo do álcool, cognitivamente, ele fica também um pouco prejudicado, a sua agilidade do pensar, a agilidade do fazer, ela fica toda prejudicada. Então com isso, psiquicamente, socialmente, clinicamente, fica todo um quadro muito comprometido.
É um efeito em cadeia.
Exatamente, então o uso do álcool realmente é um vilão e um vilão que muitas vezes é banalizado, como nós falamos no início, porque ele está presente em todas as ocasiões, em reuniões, em festas e por isso que a gente tem que ter um cuidado muito especial.
E Eliane, eu gostaria que você nos trouxesse alguma história surpreendente, porque você está aqui todos os dias em contato com essas pessoas e com certeza acompanha histórias de dificuldades de superação. Qual mais te marcou?
Eu me lembro de um paciente que nos procurou uma certa época e ele chegando no CAPS, ele dizia que fazia uso de três litros de cachaça por dia. E foi assim, uma questão muito interessante porque ele veio trazido pela esposa, que o segurava pelo braço e foi muito interessante também, marcante, porque eles tinham um cachorrinho que vinha junto. Então a gente entendia que era uma família estruturada e que a esposa estava muito presente. E esse paciente foi tão presente e teve tanta vontade de se tratar que ele foi diminuindo o uso da cachaça diariamente, foi diminuindo. Nesse primeiro dia que ele chegou, ele não conseguia andar, ele chegou carregado praticamente pela esposa e no final de seis meses ele chegou pedalando, de bicicleta, isso marcou muito e tinha uma cestinha na frente da bicicleta que ele levava o cachorro. Então assim foi uma história de superação muito grande, depois ele começou a trabalhar, a produzir e foi um marco muito importante no nosso trabalho, de superação, a equipe ficou muito feliz com o resultado, então não é algo que acontece de hoje para amanhã. Eu acho que isso também é muito importante, que as pessoas tenham em mente que, por exemplo, alguém que usou o álcool durante dez anos, não é de hoje para amanhã que a vida vai mudar. Então a gente tem que ter esse tempo, tem que ter essa paciência, esse cuidado, esse autocuidado, para que as coisas possam mudar e, para isso, contem com o CAPS.
Tem funcionado, a gente pode dizer que o trabalho realmente tem dado resultados.
Nós já tivemos vários casos assim muito exitosos aqui no CAPS, nós já tivemos várias altas, pessoas que retomaram suas vidas e que retomaram o reencontro com as famílias. Então nós tivemos sim vários momentos extremamente emocionantes e que fazem com que a gente possa trabalhar com muito mais vontade, com mais profissionalismo, com ética, vendo esse resultado. Eu gostaria até de frisar uma outra questão, que às vezes a pessoa fala assim ‘olha, eu estou muito envergonhada porque eu tive uma recaída’. Mas e o período em que ela ficou abstinente? Então, a gente tem que pensar na redução de danos, que é algo que é um foco muito importante do CAPS. Então é isso que eu digo, um passo de cada vez. Quem fez um uso abusivo de álcool durante muito tempo na vida, então, devagar também vai saindo disso e nós estamos aqui para ajudá-lo.
É o acreditar também, né? É fundamental.
Sim, com certeza.