Nelise Luques,
Fernando Lima e
Fernando Calixto
Em comemoração aos quatro anos do Jornal Verdade, o empresário e diretor presidente Carlos Pereira conta em uma entrevista os primeiros passos do veículo, e também os principais desafios de conduzir uma empresa de comunicação.
A entrevista traz um panorama do presente, com o sucesso da versão digital do jornal lançada durante a pandemia e ainda as expectativas para o futuro.
Carlos, como surgiu a ideia de criar o Jornal Verdade?
Na realidade, eu até já comentei isso, nunca passou pela minha cabeça ter um jornal, de maneira alguma. Minha filha é jornalista, ela fez jornalismo na Unesp de Bauru, se formou, trabalhou lá na TV Globo de Bauru, depois foi para Brasília, trabalhou no Ministério das Comunicações, na época do governo Lula, e depois veio para Franca. Então ela foi para o Comércio da Franca, trabalhou lá, mas sempre reclamando muito para mim das dificuldades, das coisas e tal e no começo ela teve uma desilusão com a profissão. Eu sempre falei para ela que era muito difícil, que eu preferia que ela fosse médica ou engenheira, para continuar caminho nosso, porque a gente tinha a fábrica de equipamentos. Meu filho se formou em engenharia elétrica e de produção, mas ela nunca quis, ela queria jornalismo, ela falou que era apaixonada por jornalismo, e eu acho que ainda é, mas aqui em Franca com os acontecimentos que tiveram, de uma forma um pouco agressiva de lidar com as pessoas, mas eu nunca quis entrar a fundo nisso, por ser pai, se você vai muito a fundo, você acaba pegando essas dores para você. Então eu não quis muito ir a fundo. E ela sempre muito orgulhosa, nunca quis chegar perto de mim e falar ‘ô pai, me dá oportunidade lá na empresa’, mas o meu filho já está trabalhando comigo e sentindo tudo aquilo que ela estava passando, que ela também não demonstrava muito para mim. Ele chegou para mim e falou ‘pai, oferece alguma coisa para a Juliana, ela não vai te pedir nunca, ela morre onde ela está, mas não te pede. Oferece alguma coisa, na parte comercial’. Eu ofereci e ela foi trabalhar na Endoclear. Fui passando para ela a minha experiência e surgiu a oportunidade de vender a empresa, na realidade a empresa já estava sendo negociada, porque o processo de venda demorou seis anos. Quando ela foi para lá, nós estávamos na última fase, de Due Diligence e tudo mais. Quando eu vendi a empresa, eu ainda fiquei mais um ano como presidente, mas depois existiam várias divergências de gestão, que é muito diferente, uma empresa multinacional, francesa, então um regime de administração totalmente diferente do meu. Ela foi minha a vida toda, por 30 anos, só minha. Os meus filhos, por exemplo, tinham uma participação de 0,1% porque na época eu precisava para constituir uma Limitada. Eu vendi 80% e fiquei só 20%. Então era uma empresa minha, mas eu não mandava. E por 30 anos as decisões eram todas minhas, todas. Mandava fazer, tirar, comprar, dava desconto, fazia qualquer coisa e eu criei com isso um laço de amizades no meio médico muito grande. Então assim, eu tinha esse poder. De repente, não tinha mais, porque lá era preto no branco. Antes eu decidia isso, porque se tivesse um prejuízo era meu, se tivesse lucro, era meu. Eu tinha autonomia total, de 100%. De repente, eu tinha que consultar a França. Agora, no meu caso, eu era presidente, sócio e estava aqui cuidando da empresa. E eles não entendem isso lá, que aqui tem que ter esse jogo de cintura, porque lá não existe isso, de dar descontão, isso é o jeitinho brasileiro. Eu não estava me sentindo confortável com a situação e joguei aberto com eles. Tivemos um encontro aqui em Franca e eles decidiram comprar a minha parte, ficou tudo certo, tudo tranquilo. Eu saí da empresa e quando eu saí, não me preocupei com o Henrique, eu me preocupei só com a Juliana, porque o Henrique era engenheiro de produção e engenheiro elétrico, já estava iniciando uma pós aqui na USP, tinha experiência, tinha a fábrica na palma da mão. A Juliana não, ela estava no comercial e tive receio que ela fosse demitida. Tinha a preocupação de pai, que ela podia reviver aquela história, aí, coincidentemente o Levi Faleiros, que era do Diário da Franca, cuidava de todas as artes das empresas, logomarca e tudo, a parte de papelaria toda, e ele sugeriu que eu fundasse um jornal. Ele dizia que aqui em Franca ia ficar essa lacuna com o fechamento do Diário. E eu fundei o jornal pensando na Juliana, para ela tocar e eu daria uma ajuda, se precisasse, em termos de investimento e tal. E eu fundei o Jornal Verdade, mas para minha surpresa, a Juliana cresceu dentro da empresa, desenvolveu e lá ficou. E eu fiquei com o jornal para tocar. E depois ela acabou caminhando para outras áreas, trabalha com o marido dela até hoje.
E depois que fundou o jornal, como você lidou com algo tão novo para você?
O pessoal da área de jornalismo que veio para cá da área, por exemplo, o Levi e o Pinati venderam a ideia muito bem vendida. Eles me passaram uma coisa e eu me encantei. Eles me venderam uma ideia, uma coisa e eu achei aquilo muito bonito, muito bacana. Eu comecei com um entusiasmo muito grande. Era uma área muito nova para mim, muito interessante, as reportagens, as discussões de pauta, as vezes eu vinha só para ouvir e achei tudo muito interessante, mas depois aquilo foi mudando, com algumas discussões, alguns problemas, começou a ter um viés de ideologia e não era o que eu pensava. Quando fundei o jornal, eu disse que um princípio a seguir era não fazer mal à imagem de ninguém. Imagem não se recupera. Eu lembro de uma passagem de um menino que tinha um restaurante perto da Prefeitura e se envolveu com alguma coisa ilícita, ele foi preso e tiraram foto dele algemado, colocaram no jornal. Eu falei: ‘gente, isso não tem necessidade, não precisa, não é isso que nós conversamos, que nós queríamos’. Poderia escrever a reportagem, falar do empresário francano, mas não ficar mostrando a cara dele na capa. Eu falava muito isso, sabe por quê? Esse cara pode até ter cometido isso, mas ele tem mulher, tem filhos na escola, tem pai, tem mãe. Você não sabe o que passa um filho na escola, porque todo mundo fica sabendo, vê essa imagem e tal. Então, essas coisas foram me chateando muito. Uma outra passagem que lembro é de cafés que a gente fazia e convidava empresários, políticos para falar sobre o jornal e teve um dia que veio uma menina que passou por um problema grave com um cara que ela namorou, a Adriana Telini. Não sei detalhes da história dela, mas ela contou como sofreu com as notícias dos jornais na época, que a mãe dela sofreu muito, que teve um dia que nem quis se levantar da cama para não ver a notícia do jornal. Ela até chorou aqui, mostrou um sofrimento grande, aí ela falou ‘estou aqui hoje para te parabenizar, vim cá só te parabenizar. Se as pessoas fossem como você, a minha família não tinha vivido o que passou’. E ela falou, eu sei que eu errei. Eu sei que eu errei e eu paguei caro por esse erro. As pessoas não sabem o que é uma cadeia. É um negócio muito triste, muito triste. Eu sempre falei que aqui é um jornal, aqui nós não somos esquerda, não somos direita, não somos socialistas, nós somos jornal, e jornal não pode ter partido. E como o nome diz, tem que falar a Verdade.
Carlos, em março de 2020, quando o Verdade estava prestes a completar dois anos, começa a pandemia em Franca. Como foi esse momento?
O jornal foi mudando, as pessoas que iniciaram com a gente foram saindo até coincidir com a pandemia. A nossa última edição impressa foi dia 20 de março de 2020 porque com a pandemia tivemos que parar de imprimir o Verdade. A pandemia, para mim em relação ao jornal, foi extremamente benéfica, foi uma pausa que eu precisava porque é muito difícil enxergar algumas situações no andamento das coisas. E uma coisa que eu observei é que você fecha uma empresa, seja de calçado ou outra área, da noite para o dia, e se ela não for uma empresa monstra, não dá nem repercussão. Um ou outro comenta. Agora, fechar um jornal é outra história. E olha, você fecha um jornal que tinha o quê, dois anos? Você imagina que repercussão isso não daria. Aí eu aproveitei a pandemia para tentar organizar, nós enxugamos a estrutura, ficamos com poucas pessoas, o pessoal começou a fazer em casa, recebia o benefício do governo e eu fui fazendo acordo com um a um, pagamos todo mundo. O pessoal tinha medo de ser demitido e não receber, mas eu tive uma coisa muito a favor que foi a minha relação com o jornal, eu sempre fui muito firme com tudo, com fornecedor, sabe? Sempre pagando, mesmo com as dificuldades, porque as pessoas sabiam que não entrava aquele valor e que eu aportava. Então, isso me deu uma credibilidade muito grande. Mas graças a Deus deu tudo certo.
Foi também durante o período pandêmico que surgiu a versão digital do Verdade. Como nasceu essa ideia?
A gente gerava um arquivo do jornal em pdf para enviar para imprimir em Ribeirão, mas com a pandemia havia risco de contaminação pelo coronavírus e a impressão teve que ser suspensa. Para não deixar os leitores sem receber o jornal, passamos a enviar a edição digital por email para as pessoas. No começo a gente enviava a capa e mais duas páginas. Aí tivemos a ideia de organizar as matérias no formato digital, em pdf, com mais páginas e passamos a enviar por e-mail e WhatsApp também. Hoje temos mais de 20 mil envios diários do jornal. É o grande diferencial do Verdade.
O Verdade nasce no formato impresso no momento em que já existia uma forte tendência ao digital. Por que optar por essa versão?
Antes de fundar o jornal, consultei amigos meus que são jornalistas, tinham experiência na Folha de São Paulo, no Jornal A Cidade, de Ribeirão Preto, e eles me incentivaram a fazer o jornal impresso. Um deles comentou que quando Chateaubriand trouxe a televisão para o Brasil, o rádio era soberano, a Rádio Nacional no Rio de Janeiro era fantástica, todo mundo ouvia, e foi o maior temor de que o rádio ia acabar. E o que aconteceu? O rádio se reinventou e existe até hoje e é muito forte. E ele me disse: ‘eu te digo o mesmo, se for fundar o jornal, faça ele impresso, amanhã você vai estar à frente. Mas eu acho que foi mais paixão que a realidade, porque no mercado, na prática, a história era diferente. Planejamos e fazíamos a impressão em Ribeirão Preto, com três mil exemplares inicialmente. E assim nós começamos. Mas uma coisa que eu também observei nesse meio, não sei se é só aqui no Verdade, se no Comércio tem ou se é em outros locais, mas eu enfrentei uma desonestidade muito grande. Por exemplo, eu descobri que o pessoal negociava trocas no nome do jornal. Olha, posso te dizer que por termos tido a ideia da versão digital, o PDF, as coisas acalmaram, porque eu já teria fechado o jornal. E essa ideia de seguir com o PDF só se concretizou porque as pessoas que ficaram no Verdade, uma equipe extremamente enxuta, conduziu o processo, executou a ideia, com paciência, tranquilidade, com muito carinho, sem polêmica.
A versão digital do Verdade permite ao leitor receber a edição gratuitamente pelo WhatsApp e direciona a leitura para o site, além de ter as páginas diagramadas com diversas editorias. É um formato muito prático…
Eu não sei se nós somos o primeiro no Brasil, isso eu não posso te dizer, mas eu não me lembro de ter visto anteriormente. Eu vi depois, mas anteriormente a nossa não, não me lembro mesmo. A versão digital te dá acesso direto ao site, a gente já comentou também de ser diferente desse movimento, você chega até a pessoa com o produto, não precisa do movimento inverno, ela chegar até você.
Você tem uma grande experiência no setor privado, mas sempre com empresas muito diferentes do Verdade, eram empresas mais voltadas para o setor da saúde por exemplo. Qual é o maior desafio de gerenciar uma empresa de comunicação?
Neste período de quatro anos eu tive dois desafios, um anterior a pandemia e outro pós. Anterior à pandemia o maior desafio era gerenciar pessoas que trabalham no jornal. O jornal me deu uma experiência fantástica, a de que o dia que você for fundar uma empresa, nunca contrate um grupo todos de pessoas que vem de uma outra empresa semelhante. Isso é uma lição para a vida toda e para qualquer situação.O grande desafio pós-pandemia foi tornar o jornal rendável. Eu tive uma surpresa muito grande, já que anteriormente eu tive um desgaste tão grande com a classe, com pessoas com jeito arrogante, prepotente, e isso agora mudou. Gerenciar pessoas virou algo banal, fácil, sem estresse, o que me surpreendeu muito. Eu era bem desacreditado com jornalistas, mas agora felizmente isso mudou bastante. Hoje é um grande desafio torna-lo rentável, e eu vejo um futuro extremamente grande para isso. Se eu tivesse tomado uma decisão com um ano de antecedência que eu tomei agora no começo do ano, nós já estaríamos muito diferentes.
Hoje o Verdade chega a mais de 20 mil pessoas diariamente. Como é esse processo e como chegar a mais pessoas ainda?
Hoje o mais importante é nós termos o maior número de pessoas cadastradas recebendo esse jornal. É isso que vai mudar, porque não tem como, é uma coisa básica. Você pega esses influenciadores como que eles alcançam o sucesso? É porque tem muitas pessoas seguindo eles, visualizações. Isso vai fazendo com que as empresas se interessem por eles, por conta da exposição, por conta do alcance que eles possuem com essa alta visualização. Então eu falei para o pessoal, a partir do momento que a gente tiver aqui acima de vinte mil, nós já vamos ter uma mudança muito grande. E se chegarmos a cinquenta mil aqui, vocês não imaginam a mudança que nós teremos. O Verdade foi pioneiro nessa ideia do PDF, hoje outras pessoas também fazem, mas o nome que o jornal criou, o peso do nome Verdade é diferente, as pessoas conhecem e tem muita credibilidade. É um nome de peso. Quando falei para o meu filho da ideia do nome, ele me alertou, disse: “Você tem ideia desse peso? Cuidado, muito cuidado. Uma única mentira dá margem para desmontar a imagem. Uma única coisa, não precisa de duas”. Ele me alertou ainda que não era eu quem escrevia, eram outras pessoas. Eu insisti que queria arriscar e decidimos manter o nome. No começo era Diário Verdade, a minha ideia era pegar gancho no Diário da Franca, que estava fechando na época, mas foi tudo pensado, sendo que no aniversário de um ano do jornal, nós já mudamos para o atual Jornal Verdade. Hoje o jornal chega até você, no seu celular e temos vários pedidos de pessoas querendo receber o jornal. Mudamos a administração, e todos os dias cerca de 100, 150, as vezes 200 nomes são cadastrados no nosso sistema. O objetivo é atingirmos pelo menos 50 mil, ainda vamos chegar até este número.
Quais são as perspectivas para o futuro, para os próximos quatro anos? O que você enxerga para o futuro?
O pós pandemia foi uma organização, essa fase agora já acabou. Hoje já temos uma direção, uma luz. Agora é continuar buscando mais pessoas para receber o jornal, se chegarmos ao nosso objetivo, o futuro do jornal vai ser muito glorioso, porque nós estamos muito na frente, temos uma vantagem monstra em termos de credibilidade, que foi sendo construída com o tempo, com a seriedade do jornal. Isso é muito importante, especialmente neste período em que a imprensa está sendo muito desacreditada em partes, o que é muito triste. As pessoas estavam associando o jornalismo, a imprensa em geral com algo ruim.
Você fala sobre a imprensa ser desacreditada. Quando falamos em imprensa livre, o que vem a sua cabeça como dono de um jornal?
A única arma que a democracia tem é uma imprensa livre. Se você quiser manter uma democracia viva, só se consegue com a imprensa livre. Hoje eu vejo as pessoas falando, eu vejo muitas discussões, muita polêmica, mas nada como uma imprensa livre. Eu vejo alguns problemas em alguns países, como a Coréia do Norte, China, Venezuela, Rússia, imagina se aqui fosse assim?
Quem é o Carlos Pereira, dono do Verdade?
Eu tenho 58 anos, a minha trajetória foi assim, eu tive meu primeiro emprego na Usina de Furnas, mas uma coisa que eu sempre tive vontade, era a de ter alguma coisa minha. Em Furnas era um trabalho muito monótono, então eu saí, voltei para Franca, fui trabalhar em Ribeirão Preto no grupo São Francisco. Mas eu sempre quis montar uma empresa, e no final de 1985, eu montei um laboratório para fazer manutenções em equipamentos médicos. Na década de 90 muita coisa mudou, e eu fazia muitas manutenções em equipamentos de hemodiálise, eram uns equipamentos antigos, de tanque e tal. Houve um acidente em Caruaru, aquilo marcou muito. A água usada na máquina estava com uma toxina causada por uma planta, matou muita gente na época. Tiveram problemas também em São Paulo. Quando aconteceu isso, eu vi a oportunidade. Eu tinha comprado muitas peças de uma máquina americana, já que nos Estados Unidos, as máquinas de diálise não podem ter mais que duas mil horas. Achamos uma empresa em Miami. Comecei a comprar as máquinas deles e nacionalizava, preço barato e vendia no mercado. Fomos arrebentando e colocando essas máquinas no mercado, montando clínicas e tudo mais. Depois decidi parar com este ramo, tive uma experiência ruim de me apegar a pacientes e eles morrerem, eu me apegava a eles enquanto eu fazia manutenção em máquinas, e isso me dava algo ruim. Foi assim que fui vendo coisas diferentes, vi que a Anvisa começou a sinalizar para o lado de autoclaves, que ela precisava de ser a vácuo e tal, e que tinha que automatizar e tudo mais, o que eu fiz? Vi um novo nicho. Entre outras oportunidades que foram surgindo, e no final de dois mil e cinco, a Endoclear já estava produzindo equipamentos. Eu sempre estive envolvido com empresas, já tive outras de embutir, fábrica de picolé, entre tantas outras, mas eu nunca fui de gostar de jornal, de sair em colunas, essas coisas, sempre fui avesso a isso, não era minha praia. Depois de trinta anos vendi a Endoclear, no dia trinta de julho de 2015, nós tínhamos quase 90% do mercado nacional na época e 70% na América do Sul. Mas foram decisões que fui tomando, hoje sigo com outras empresas de diferentes segmentos além do Verdade.