Nelise Luques
A relação do empresário Tarciso Bôtto com a Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca) é de longa data. De associado e membro da diretoria, ele passou a presidente da Acif, cargo assumido em abril de 2019.
Em março de 2020, prestes a completar um ano de gestão, Bôtto se viu diante de um enorme desafio: enfrentar a pandemia da Covid-19 e todos os impactos que ela gerou, com acontecimentos muito incertos e sem a exata dimensão do que o coronavírus representava.
Os planos de grandes eventos e implantação de novos projetos precisaram ser adiados e deram lugar à missão de encontrar caminhos para reduzir os prejuízos com o fechamento do comércio por conta da crise sanitária e criar ferramentas de suporte aos associados. São mais de três mil atualmente.
Agora, um ano e nove meses após a chegada da pandemia a Franca, Tarciso Bôtto trabalha com novo plano de ações, focado na retomada do setor comercial pós-pandemia. Para ele, o avanço na vacinação contra a Covid-19 e estabilização da abertura do comércio geram otimismo e plantam esperança para um 2022 mais promissor.
Nesta entrevista ao Jornal Verdade, Bôtto destaca os programas criados para dar suporte aos associados, as expectativas com a abertura em horário ampliado do comércio a partir de segunda-feira, dia 6, a polêmica envolvendo quase R$ 1 milhão investido na iluminação de Natal em Franca neste ano, e outros temas que impactam o setor comercial francano e a população. “Somos uma entidade séria, que há 77 anos tem trabalhado pelo desenvolvimento empresarial da cidade e que dará publicidade de seus atos não só ao Poder Público, mas à própria comunidade com a divulgação da prestação de contas do projeto em questão”, afirmou.
Desde 2019 o senhor preside a Acif, entidade com quase 80 anos de história e forte representatividade. Como surgiu a oportunidade de assumir este cargo?
Minha relação com a Acif começa enquanto associado. A empresa da família, a LC Bôtto – Ótica Melani, é uma associada Acif há mais de 40 anos. Sempre acompanhei o trabalho da associação por esta perspectiva e, além disso, meu pai, seo Luciano Bôtto, teve a oportunidade de presidir a Acif e a associação era tema de muitas conversas em casa. Em 2007, fui convidado a integrar a diretoria administrativa, ainda na gestão de João Cheade, e permaneci como diretor comercial pelas gestões seguintes: José Alexandre e Dorival Mourão, até que me foi feita a provocação de montar chapa própria para a eleição de 2019. Entendi que eu podia aceitar este desafio, já conhecia a entidade pela ótica do associado e da diretoria, e quis contribuir com o meu trabalho.
Quais têm sido os principais desafios da gestão?
O principal desafio foi, sem dúvida, a pandemia. Assumi em abril de 2019, com projetos em andamento e bons planejamentos para 2020 – como a realização da 1ª Rodada de Negócios e o Fórum da Mulher Empreendedora, que tradicionalmente reúne 500 empresárias ou mais – que precisaram ser interrompidos prestes às suas realizações. Além disso, não tínhamos a dimensão do desenrolar da pandemia e, de repente, em vez de promoção de ações, estávamos lidando com severas restrições ao comércio, algo nunca visto nesta geração e em proporção global. Reorganizamos toda a nossa estrutura para atender remotamente nossos associados e montamos um plano de ação para que conseguíssemos ampará-los em todas as suas novas e urgentes necessidades. Agora, neste momento, nosso desafio é continuar dando suporte à classe empresarial em ações de fomento à retomada econômica, como, por exemplo, a mais recente, o Natal da Esperança. Esta parceria com a Prefeitura de Franca, possível através da aprovação da Câmara Municipal, é muito importante. A pandemia ainda inspira cuidados, não é hora de abandonar os cuidados básicos de prevenção ao contágio, mas vivemos uma situação sanitária que nos permite proporcionar à população um momento de lazer e, ao mesmo tempo, levar as famílias a visitarem o comércio, algo que impulsiona as contratações, ou seja, a geração do emprego e renda na nossa cidade. Para se ter uma ideia, sabemos que, tradicionalmente, 30% das vagas temporárias criadas no fim de ano se efetivam. Com base em anos interiores e análises internas da Acif, esperamos que 3 mil oportunidades se abram neste fim de ano, para o comércio local.
Que projetos importantes já foi possível implantar desde que assumiu a presidência?
Nesta gestão, tivemos, antes da pandemia, a oportunidade de remodelar o espaço físico da entidade colocando a maioria dos colaboradores em um mesmo ambiente a fim de aumentar a interação entre os setores e favorecer o intercâmbio de ideias. Também investimos em Recursos Humanos e ampliamos os projetos voltados à qualificação dos colaboradores e seu bem-estar. A própria Rodada de Negócios Internacionais – que realizamos pelo setor calçadista em parceria com a Prefeitura de Franca, Invest-SP e Sebrae-SP – é um projeto que nasceu durante a atual gestão. Também iniciamos um trabalho de regionalização da Acif, quando, antes da pandemia, passamos a levar cursos e qualificação para os empresários nos bairros. O trabalho foi suspenso em razão da pandemia, mas será retomado. Também posso citar a campanha ‘Liquida Tudo Franca’, que tem o objetivo de dar competitividade aos pequenos nos mega saldões do início do ano. Por meio da Acif, eles participam da ação que ganha outdoors, propaganda na TV, rádio e demais meios de comunicação, numa união de forças, já que as grandes redes conseguem, individualmente, investir neste marketing. No primeiro ano, tivemos o apresentador Rodrigo Faro à frente da campanha.
E quais as ideias futuras?
Dentre tantas, queremos alavancar as atividades do nosso Departamento de Negócios Internacionais (DNI-Acif). Através dele, estamos trabalhando pelo programa “Internacionalização de Empresas Acif – Café China” que vai qualificar micro, pequenos e médios produtores de café da região de Franca para operarem na China por meio de uma base comercial que a Acif pretende instalar no país, junto a outros parceiros. Também daremos incentivo à criação de novos núcleos de desenvolvimento empresarial pelo Programa Empreender e daremos continuidade à manutenção do Projeto Guri na cidade de Franca, bem como aos apoios administrativo e institucional dado à Orquestra Sinfônica de Franca e Projeto pró-Criança. O Acif Móvel – que possui estrutura de atendimento ao público em uma van com wi-fi, café, telas, som, etc. – vai passar a levar palestras e qualificação aos empresários nos bairros de Franca. Também estamos criando uma agência de publicidade para atender nossos associados e o site oficial da Acif, o www.acifranca.com.br, acaba de ser repaginado e tem trabalhado com notícias do universo empresarial, para além das institucionais. Enfim: as equipes da Acif estão a todo vapor para 2022.
Os últimos meses foram desafiadores para vários segmentos por conta da pandemia da Covid-19. Que impactos ela teve no setor comercial?
A cidade de Franca, assim como o Brasil, o mundo, sofreu muito com o avanço da pandemia. Os impactos da crise sanitária foram grandes e a perda das vidas, o maior deles, é algo impossível de se mensurar. Na área econômica, os empregos tiveram um grande baque: segundo dados do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério da Fazenda, no início da pandemia, em março de 2020, Franca tinha 89.450 pessoas com carteira de trabalho registrada. Em julho desse mesmo ano, ou seja, quatro meses depois, a quantidade caiu para 78.623 postos de trabalho, uma queda de 12%. Essa grande queda no número de empregados aconteceu principalmente pelas demissões advindas da indústria calçadista que sofreu com a paralisação do comércio mundial e, hoje, tem retomado suas contratações de maneira gradual. Para se ter uma ideia, no cenário pré-pandemia, até março de 2020, Franca exportava mensalmente cerca de US$ 140 milhões e, no auge do contágio da Covid-19, que aconteceu em junho de 2020, Franca exportou US$ 50 milhões, sofrendo uma queda de 65%. A boa notícia é que já podemos observar sinais claros de que a cidade tem retomado seu eixo. Só neste ano, Franca abriu 10.515 postos de trabalho, voltando ao patamar anterior à Covid-19, com mais de 89 mil carteiras assinadas.
Neste momento, quais foram os maiores desafios da Acif e do próprio setor comercial, na opinião do senhor?
Acredito que a reestruturação imediata das empresas para o trabalho e atendimento remoto, a migração compulsória para o mercado online que muitos tiveram que fazer, do dia para a noite, e a instabilidade na abertura do comércio. A situação foi inédita para todos, inclusive para o governo, vidas precisavam ser preservadas, mas as mudanças abruptas nos sistemas de atendimento e impossibilidade de atuar deixava o comerciante confuso em relação ao gerenciamento do seu estoque, equipe e demais atribuições do seu negócio. O cenário sanitário se alterava de uma semana para outra e foi desafiador lidar com essa instabilidade e também com as questões pessoais. Tivemos muitas perdas e havia o medo da contaminação, preocupação com a quantidade de leitos. Atualmente, ainda estamos em meio à pandemia e não podemos nos esquecer das recomendações sanitárias, mas já temos 70% da população vacinada, a logística da Saúde está em dia e os setores econômicos voltaram a atuar, inclusive, o de entretenimento, um dos maiores afetados no processo. É preciso que o Poder Público, em todas as esferas, incentive fortemente a classe empresarial e esse tem sido o propósito da Acif.
A Acif promoveu várias ações e criou programas para auxiliar os comerciantes neste período, como o apoio na busca de linhas de crédito disponíveis no mercado e programas sobre e-commerce. Quais ações o senhor destaca e que resultados importantes geraram para enfrentar as restrições e retração na economia durante essa crise sanitária?
Em meio a tantas mudanças na legislação e nas relações de trabalho em razão da pandemia, criamos um plantão de dúvidas gratuito em nosso setor jurídico. Além de, individualmente, esclarecermos questões inéditas aos nossos associados, o setor de marketing ampliou esse alcance com o Acif Responde. Reuníamos as dúvidas mais frequentes que chegavam ao jurídico e via redes sociais e criamos conteúdos de esclarecimento, acessível a toda a comunidade: empresas não associadas, trabalhadores e demais interessados. A fim de dar assistência aos pequenos empresários que ainda não possuíam canal de venda online e não tinham prática nesta área, criamos a Vitrine Virtual Acif: uma interface simples de ser acessada que colocava em evidência produtos e serviços locais de forma gratuita e com o suporte técnico da Acif para operá-la. Levamos nossas equipes aos estabelecimentos, com estrutura de captação de áudio e vídeo, iluminação e todo o suporte técnico para realizar Lives de Vendas. Vimos oportunidades no mercado financeiro surgirem e as dúvidas sobre qual linha de crédito acessar e como fazer isso surgir. Criamos, então, o Caminho Para Crédito, que oferecia consultoria gratuita para os empresários que buscavam nesta opção um meio de evitar demissões, equalizar contas e demais demandas da empresa. Pelo Mentorias, prestamos atendimento individualizado com profissionais de ponta em áreas como TI, Marketing, Vendas e muito mais. Esses foram apenas alguns dos projetos criados, neste sentido.
Estamos em um período, espera-se, de retomada pós-pandemia. Qual a principal preocupação e cuidados para este momento?
Em relação à economia, as principais preocupações ficam por conta do cenário macroeconômico do Brasil. O aumento constante da taxa básica de juros (SELIC), a desvalorização cambial e inflação podem ser empecilhos que impactariam a retomada pós-pandemia. Um exemplo disso são os aumentos constantes nos combustíveis – que têm influência direta no orçamento das famílias, transporte público e, também, nos preços nas gôndolas, já que o principal modal de transporte brasileiro é o rodoviário.
Como estão as expectativas para este momento?
Os últimos indicadores demonstram um otimismo do comerciante, que voltou a recontratar e, também, dos consumidores que estão demonstrando – através das pesquisas de intenção de compra que realizamos – uma inclinação ao consumo. Vemos no avanço da vacinação e da estabilização da abertura do comércio dois dos principais motivos para este otimismo. Tudo indica que o ano de 2022 será um ano para impulsionarmos nossa economia, apesar dos desafios.
Como a Acif tem auxiliado os comerciantes para esta fase e o que tem sido feito para ajudar a estimular as vendas?
Ainda continuamos com os incentivos às vendas online, com cursos básicos para quem quer se lançar no e-commerce, com as lives de vendas, bem como com qualificação em atendimento e gestão; temos no ar a campanha ‘A Arte de Ganhar’ que tem incentivado o consumo no ponto de venda com a oferta dos copos colecionáveis Ícones Francanos. Aliás, sobre essa campanha, vimos o desejo do público por esses copos que retratam as vocações e monumentos da cidade, como o Relógio do Sol, o Colégio Champagnat, o Parque “Fernando Costa”, o Calçado, o Café e o esporte, por exemplo. Desta vez, a gestão da distribuição dos itens está por conta de cada estabelecimento participante, que decide a melhor forma de distribuir: acúmulo de cupons, raspadinhas ou até mesmo por valor de compra.
Recentemente, a Acif divulgou dados surpreendentes do seu Instituto de Economia sobre as projeções de vendas, geração de empregos temporários e fluxo de clientes para o fim de ano em Franca. Segundo o IE, devem ser injetados mais de R$ 44 milhões na economia, gerados 3 mil empregos entre novembro e dezembro e 170 mil pessoas devem passar pelas lojas da cidade. Gostaria que o senhor comentasse os números e expectativas para o primeiro Natal após um dos momentos mais críticos da pandemia, como foi no fim de 2020.
As projeções apresentadas pelo IE-Acif são baseadas em micro dados coletados em pesquisas de campo – como as que divulgamos com a intenção de consumo nas datas comerciais: Dia das Mães, Pais, Natal e etc, – e também estimativas com base no Ministério da Fazenda. A expectativa para o Natal é animadora, tendo em vista as contratações dos últimos meses, a predisposição da população ao consumo e que o pagamento do 13º salário irá injetar na economia local mais de R$ 216 milhões. Conforme você mencionou, a expectativa é que, no comércio local, R$ 44 milhões sejam movimentados no mês de dezembro. Tudo indica que esse Natal, de fato, será o Natal de Esperança. Para o Natal, a expectativa é de que 170 mil pessoas saiam às compras, ou seja, uma excelente oportunidade para o comércio se alavancar.
Franca contará neste ano com a decoração de Natal em espaços públicos, com iluminação no Centro e corredores comerciais em outras regiões da cidade. Qual a importância de contar com esse incentivo para atrair o público?
Essa é uma questão importante que a Acif já teve a oportunidade de investigar. Em pesquisas passadas, perguntamos sobre a importância da iluminação de Natal aos consumidores, junto ao nosso questionário de Natal, e 79% responderam que a iluminação era um fator atrativo e importante para elas. Baseados nisso e também na percepção do comerciante, vínhamos buscando parcerias com a Prefeitura de Franca para que a iluminação fosse possível e, neste ano, ela se concretizou e pudemos estender a iniciativa a outros corredores da cidade, chegando às cinco regiões: Norte Sul, Leste, Oeste e Centro.
Como o senhor comentou, a iluminação de Natal gera grande expectativa entre lojistas e população. Neste ano, ela tem um investimento de quase R$ 1 milhão em parceria com a Prefeitura, mas tem gerado polêmica. Há quem questione o valor investido ou os materiais utilizados e, nesta sexta-feira, o prefeito Alexandre Ferreira comunicou, através de sua Assessoria de Comunicação, que a Controladoria Interna da Prefeitura instaurou procedimento para verificar a conformidade entre a aplicação dos itens e valores descritos no Plano de Trabalho apresentado para a Decoração Natalina e a execução dos serviços pela Acif. Como o senhor avalia as críticas e a auditoria aberta pela Prefeitura?
Nos pronunciamos publicamente sobre esse assunto e eu reforço o que foi dito: A Acif se coloca à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos a respeito do projeto Natal da Esperança. A Acif é a favor do rigor no acompanhamento da aplicação do dinheiro público e da transparência, ciente de que a ação da Controladoria Interna da Prefeitura na apuração do processo concorrerá para este fim. Somos uma entidade séria, que há 77 anos tem trabalhado pelo desenvolvimento empresarial da cidade e que dará publicidade de seus atos não só ao Poder Público, mas à própria comunidade com a divulgação da prestação de contas do projeto em questão.
Tradicionalmente o comércio atende em horário ampliado no fim do ano, que começa nesta segunda-feira, dia 6. Quais as expectativas com essa oportunidade de maior circulação de clientes nas lojas?
O horário especial de atendimento no mês de dezembro é, realmente, uma tradição e busca impulsionar a economia durante a principal data do calendário comercial. É uma forma de permitir à população, após o trabalho, visitar com calma o comércio local, fazer suas pesquisas de preço para os presentes de fim de ano, conferir as novidades nas vitrines, as promoções. Além disso, os passeios noturnos podem se estender nos bares e restaurantes da cidade, girando outros segmentos, por exemplo.
E como o senhor avalia as ações com o Papai Noel Itinerante e atendimentos na casinha instalada na Acif?
Neste ano, o Papai Noel está no Centro e passa pelos bairros, em centros comunitários, associações de moradores, áreas anexas a UBSs, praças, Parque Fernando Costa, quadras e outros espaços públicos. A visitação é gratuita e a comunidade pode estar próxima do Papai Noel, em um ambiente decorado, preservando a proposta do Natal da Esperança, lúdico e leve. Só pedimos para que os responsáveis e as crianças compareçam fazendo o uso da máscara e sigam as orientações da nossa equipe quando chegar a vez de recebê-lo. Vamos oferecer a higienização das mãos e manter o distanciamento social na área da ‘casinha’.
O senhor gostaria de acrescentar mais alguma informação?
Gostaria de deixar uma mensagem de otimismo. Quando olhamos para o cenário, reunindo os dados que abordamos ao longo da entrevista, percebemos que 170 mil pessoas devem ir às compras pelo Natal, que em 2021 recuperamos mais de 10 mil vagas de emprego, voltando às mais de 89 mil carteiras de trabalho assinadas, que teremos um fôlego extra com a injeção de R$ 216 milhões com o pagamento dos 13º dos trabalhadores – sem mencionar o dos aposentados e pensionistas – que há incentivos ao comércio para este fim de ano, como as ações do Natal da Esperança, e que vamos progredir na dose de reforço da vacinação. Esses fatores serão um excelente combustível para que 2022 seja um ano de paz e prosperidade, desejo que, tradicionalmente, nos alcança nessa época do ano.