Fernando Lima
Em comemoração ao aniversário de Franca, o Jornal Verdade traz uma entrevista com o historiador Jonas Marangoni, o assunto, claro, é o surgimento da cidade, além de curiosidades dos quase 200 anos de história da cidade que vão surpreender o leitor.
Você sabia que, por exemplo, a economia e o desenvolvimento de Franca estão ligados diretamente aos estados de Minas Gerais e de Goiás? E que, por pouco a cidade não pertenceu a Minas? Confira a entrevista e entenda como tudo isso aconteceu!
Jornal Verdade- Professor, como surge Franca?
Jonas Marangoni- Franca é uma cidade que surge como povoado, graças a descoberta de ouro em Goiás, então ela se torna um local de passagem de viajantes, junto com outras cidades aqui da região. A princípio aqui era apenas uma região de paragem para quem ia para Goiás buscar esse ouro no século XVIII. Lembrando que Franca fica entre o Rio Pardo e o Rio Grande, então quando se pensa no surgimento da cidade, se pensa em toda essa região. Por aqui começou a ter os transportadores que pegavam o sal no litoral. Minas Gerais está longe do litoral, Goiás também está, então era necessário levar o sal que se fabricava no litoral para essas regiões. Por isso Franca passou a ser aí um entreposto comercial desse produto e começou a se desenvolver em pequenos fluxos regionais. Depois foi criado uma companhia de ordenanças que pertencia a freguesia da cidade de Caconde e o município de Mogi Mirim. Até que começa a aumentar o fluxo de moradores, principalmente pessoas que vinham do triângulo mineiro, então Franca tem uma forte ligação com aquela região, e isso é um dos motivos que leva a cidade a ser a terra do calçado masculino. Primeiro, boa parte do couro utilizado na fabricação vinha da região de Uberaba e companhia, e segundo Franca vai fazer o sapato masculino a princípio pensando nesses viajantes, nessas pessoas que passavam por aqui como uma região de transição. Embora Franca pertença ao estado de São Paulo, o desenvolvimento como cidade, sempre esteve ligado a Minas e Goiás, o que é uma coisa que muita gente nem sonha, né?
A cidade em si se forma só a partir de 1.805, quando é criado um arraial, inclusive o nome Franca é em homenagem ao governador da capitania de São Paulo, Antônio José de Franca. A cidade se forma entre os córregos dos Bagres e do Cubatão, ou seja, começa na sua área central. Antes disso, outras regiões foram ocupadas por fazendeiros por conta das redes dos comerciantes do sal. Por isso que muitos afirmam que a cidade surge mais na sua região norte, em uma região mais próxima do Miramontes. Mas há também quem diga que os primeiros moradores ficavam próximos ao Rio Canoas. Então nós não sabemos certinho onde essas pessoas moravam antes da formação de Franca, embora se tenha quase que um senso comum sobre o Miramontes. Em relação ao centro da cidade, ali mesmo onde está a praça, a igreja, ali foi a primeira área povoada. Inclusive a igreja matriz é desse período, já que ela foi feita logo ali no início do século XIX. Então a igreja matriz vem junto com a confirmação de Franca como uma cidade.
J.V. – Existiu uma disputa entre Minas Gerais e São Paulo, para ver quem ficaria com a cidade. Como foi esse conflito?
J.M- Depois de 1.805 há uma grande disputa entre Minas Gerais e São Paulo para ficar com essa cidade, há uma discussão já que Franca está na divisa. Alguns queriam que ficasse com Minas. Havia a Vila São Carlos de Jacuí, que queria abranger essa região e enquanto que a região de Mogi Mirim queria que Franca ficasse pra São Paulo. Quem conseguiu fazer com que ficasse para São Paulo, foi o Ouvidor Freire, que inclusive é nome de rua aqui da cidade.
Então Franca passa a ser um município de São Paulo a partir de 1.824, é quando se comemora tudo certinho graças ao ouvidor Freire. Franca passa a pertencer a comarca de Itú, marcando o fim dessa briga com Minas. Mas talvez o fato histórico mais importante ficou conhecido como a Ancelmada, que é quando há uma revolta liderada pelo Capitão Anselmo Ferreira, uma grande revolta popular e eles veem a necessidade de se criar uma comarca. Então a partir de 1.839 Franca passa a ser uma comarca e depois começam a surgir vilas na região, que vão passar a pertencer ao distrito de Franca. Primeiro é São José da Bela Vista, depois é Cristais Paulista, então essas cidades ao redor surgem neste período.
J.V.- Qual curiosidade histórica da cidade você destacaria para nossos leitores?
J.M.– Uma curiosidade em relação a Franca é sobre o imperador Dom Pedro II. Ele vai passar por aqui nesse período em que Franca é alçada como cidade, então a princípio vai ser a Franca do Imperador. Ele passa pela região, mas nem ficou aqui na cidade em si, quando ele passou acabou dormindo ali onde hoje é Batatais. Lembrando que nesse período eram pequenas vilas e com um mundo rural. As pessoas acham que é como se fosse igual a hoje, grandes cidades, mas não. Dom Pedro então passa por aqui e a partir daí é que se torna Franca do Imperador, mas com o fim do império em 1889, acaba o império, então uma das consequências disso é mudar o nome da cidade pra Franca, afinal não tem mais sentido você exaltar o imperador.
J.V.- Como foi a participação da cidade na Revolução de 32?
J.M.- Franca teve grande participação na Revolução Constitucionalista de 1932, enviando quase 700 homens. Inclusive a rua Voluntários da Franca é em homenagem aos combatentes francanos. A maior parte das batalhas foram disputadas em regiões de fronteira, como ali perto de Araxá, de Uberaba, mais ao sul de Minas também. Franca participou ativamente dessa guerra que era o Estado de São Paulo contra o Exército Brasileiro. É uma guerra contra o presidente Vargas, pedindo para que ele fizesse uma Constituição e passasse a uma democracia, com eleições e com o presidente seguindo as regras constitucionais.
J.V.- Como a Estação Mogiana se mistura a história da cidade?
J.M.- Você não consegue pensar o mundo a partir do século XIX até metade do século XX sem ferrovias. As cidades vão se desenvolvendo ao redor das ferrovias. Tem um ideólogo argentino que eu estudei, que fala que elas representam a partir do século XIX, aquilo que as igrejas representavam na Idade Média, onde você tinha uma igreja você desenvolvia uma cidade, a partir da segunda metade do século XIX, onde você tem uma ferrovia se desenvolve uma cidade. Então a ferrovia chega em Franca, a estação inclusive é inaugurada em 1.887
Vai chegar primeiro uma linha chamada Casa Branca. A Mogiana estava presente na região de Ribeirão Preto, que era a principal produtora de café do Brasil nesse período, ela resolve vir para mais ao norte e acaba passando por aqui. A Linha Mogiana é talvez uma das mais importantes do final do século XIX e início do século XX. Então todas as cidades em que você tinha ferrovia, elas começam a se desenvolver e com Franca não foi diferente.
Lembrando que o trem funcionou até 1.983. Primeiro em 1.977 parou o trem de passageiros, depois também o trem de carga, a Estação foi fechada oficialmente nessa data.
J.V.- O café sempre esteve presente na economia e na cultura da cidade. Alguns anos o calçado chegou a superar o café nas exportações, mas agora voltou a ser o principal produto de exportação. Como podemos explicar isso?
J.M.- A indústria calçadista em Franca depende muito dos rumores da economia, o Brasil está com sérios problemas já faz mais de uma década em relação as suas indústrias. A indústria chinesa invadiu o país, e isso fez com que o setor perdesse espaço e o calçado chinês começou a pegar mercado que antes pertencia a Franca, dentro do mercado internacional. Ainda mais com o dólar ao preço que está, a indústria calçadista tem muita dificuldade em concorrer com os chineses, mesmo com o sapato chinês ainda não sendo da qualidade do nosso.
O café por sua vez na última década teve uma revitalização. O café brasileiro foi ultrapassado pelo colombiano como o café de maior qualidade no mundo. Nas últimas décadas o mundo preferia comprar colombiano ao invés do café brasileiro, porém houve esse entendimento aqui no Brasil e foi feita uma melhoria na produção. Inclusive na nossa região isso fez com que o café brasileiro voltasse ao mercado com força total, agora o produto brasileiro não está ligado só a quantidade, mas também a qualidade, o que faz com que o Brasil recupere parte do mercado que perdeu nos últimos anos.